Fachada atual da casa onde morou Santa Clara (Assis/Itália)
A busca da vocação, do encontrar o 'seu' lugar no mundo dá-se, primeiramente, com um período de inquietação, de questionamentos quanto à vontade de Deus e a relação desta com os próprios sonhos, as expectativas de realização pessoal. É o discernimento vocacional.
O caminho nem sempre é claro, muitas vezes requer um longo período de escuta, de perguntas e respostas, que por vezes exigem auxílio de um conselheiro ou orientador espiritual. Uma vigilância que faz prescrutar os sinais divinos nos acontecimentos cotidianos.
Com Clara não foi diferente, ela sabia o que não queria (um matrimônio rico, a manutenção do status social da família, construir um mosteiro e fazer-se abadessa), mas ainda não tinha clareza de qual caminho seguir para dar-se inteiramente ao Cristo Pobre e Crucificado na forma que ansiava.
O desejo de agradar e de servir a Deus a leva a uma escuta atenta de sua Palavra e à vigilância a todos os sinais
que podiam lhe indicar o caminho a seguir. A fama de sua conduta piedosa era do conhecimento de todos, também
de Francisco.
Nas oportunidades que teve de lhe falar a exortava a se consagrar inteiramente a Jesus, desprezando os bens e as honras vãs e
efêmeras do mundo. Tanto Francisco quanto Clara tem um longo processo de discernimento vocacional, período de inquietação, de dúvidas e busca de respostas.
Ambos se fazem humildes em acolher o chamado divino, pois isso exige docilidade e abertura à ação do Santo Espírito, porque nem sempre o caminho se mostra claro, e é necessário coragem e boa vontade para empreender a jornada, amor e diligência.
Diz uma das testemunhas do Processo "que São Francisco, conhecendo a fama de sua santidade, foi visitá-la muitas vezes para lhe falar, e que a virgem Clara concordou com o que ele dizia, renunciou ao mundo e a todas as coisas terrenas e foi servir a Deus o mais depressa que pode" (ProcC12Ts).
Inculcando um amor sempre mais fervoroso em resposta à entrega a Cristo, que esvaziou-se a si mesmo pela salvação de todos, as pregações e os encontros com São Francisco deram a Clara a certeza de que nada no mundo pode ser mais precioso do que dedicar-se inteiramente ao Redentor.
Encontrado o caminho Clara passa então a ter pressa de vivê-lo, a resposta tão desejada chegou, assim não se intimida com as privações que advirão com sua escolha. Quem ama deseja estar com o ser amado, um coração enamorado quer sempre diminuir as distâncias.
O recolhimento quanto ao corpo não lhe é uma imposição, é uma consequência de sua opção de vida, já em casa evita os olhares alheios. Segue o exemplo de Cristo, é preciso subir a montanha para se estar em melhor comunhão com o divino, pois daí provêm a felicidade autêntica.
Então, com o apoio do bispo de Assis, Francisco e Clara logo organizam um plano de fuga, pois a família jamais consentiria, de bom grado (ao menos os membros masculinos) em ver frustradas suas expectativas econômicas quanto ao futuro da primogênita.
Para os Ofreduccio, especialmente aos homens, o centro da atenção estava mais no que era do tempo do que da eternidade, também ignoravam que a renúncia à riqueza e ao poder dão a glória e o louvor que são devidos a Deus, e traz a realização tão almejada por todo ser humano.
Sua família ignorava a graça do seu chamado vocacional, que popularizaria o seu clã. Mas aAcolher o chamado de Jesus sempre implica em renúncias e despojamentos. É um 'sim' que exige mudanças, às vezes, radicais. Diz Santa Clara em seu Testamento:
"E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião, onde em pouco tempo o Senhor nos multiplicou por sua misericórdia e graça, a fim de que se cumprisse o que tinha predito por seu santo" (TestCl).
Os desígnios divinos, não raramente, como para Santa Clara e principalmente para São Francisco, vão ao contrário dos projetos e desejos humanos, que almejam uma felicidade pautada no sucesso profissional, na constituição de uma família e na conquista da independência financeira.
Deus quer muito mais do que isso para seus amados filhos e filhas, quer uma satisfação plena, que ultrapassa o tempo. E, muitas vezes, usa uma vida para transformar muitas outras. Torna-nos seus eficientes colaboradores, faz de nossas fragilidades instrumento de construção do seu Reino.
Atualizada em 11/02/2026



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