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| Urna-relicário de Santa Clara (vista pública e vista a partir da clausura das Irmãs) |
É comum às centenas de turistas e pessoas devotas que visitam anualmente a Basílica de Santa Clara (Assis/Itália) fazerem suas orações junto a Santa. Pedidos, súplicas e também louvores por graça recebida, como antes acontecia na grade de seu mosteiro de São Damião e junto ao seu sepulcro.
Ao contrário do que muitos pensam (e divulgam) na parte superior do relicário não é seu corpo incorrupto que está lá e sim um manequim de cera que, com uso da tecnologia, traz as medidas de tamanho e fisionomia que deveriam ser as suas ou, ao menos, aproximadas.
O manequim evoca a sua presença concreta, emanando paz e serenidade, já que os ossos, guardados sob ele, não podem ser expostos ao olhar de todos, como se desejaria, uma vez que a luminosidade acelera a deterioração, provocando uma perda total, o que seria irreparável.
Os restos mortais de Santa Clara (a imagem acima) estão na parte inferior e são visíveis somente por detrás da urna, onde o acesso é restrito, favorecendo as Irmãs Clarissas (que habitam no mosteiro em anexo a basílica) e alguns visitantes, visando a conservação das relíquias.
Basílica de Santa Clara e mosteiro das Irmãs Clarissas (Assis/Itália)
Clara morreu em 11 de agosto de 1253, no mosteiro de São Damião, em Assis, aos 60 anos de idade, sendo que passou a maior parte da sua existência com uma misteriosa enfermidade, que lhe dava grande fraqueza e incapacidade de deixar o leito.
Mesmo enferma, em nada arrefeceu na fé e na doação generosa. No dia seguinte ao seu falecimento, foi transportada com todas as honras, inclusive com a presença da Corte Pontifícia, para a Igreja de São Jorge, lugar da primitiva sepultura de Francisco.
Com a conclusão da Basílica de São Francisco, logo depois, se construiu a basílica dedicada a Santa Clara, para onde também foram transferidas as Irmãs que habitavam em São Damião. Cuja mudança a Santa havia profetizado, já admoestando as Irmãs ao desapego.
Foi o Papa Pio IX que autorizou, em 1850, as escavações para se trazer à luz o corpo da Santa. O sarcófago foi descoberto em 30 de agosto, mas foi aberto somente no dia 23 de setembro do mesmo ano, dadas as averiguações de autenticidade de que era, de fato, o da Irmã Pobre de Assis.
Se decidiu então por preparar uma cripta onde todos os peregrinos pudessem venerá-lo. O trabalho levou anos para ser concluído. Somente em outubro de 1872 o "corpo" de Santa Clara foi posto para veneração pública num precioso relicário.
Revestido de hábito religioso e deitado sobre um ornamentado colchão (imagem abaixo), foi assim que muitas pessoas o viram por mais de um século. Quando em 1986 procedeu-se a recomposição do relicário, que estava muito danificado, se descobriu também os restos mortais da Santa.
Revestido de hábito religioso e deitado sobre um ornamentado colchão (imagem abaixo), foi assim que muitas pessoas o viram por mais de um século. Quando em 1986 procedeu-se a recomposição do relicário, que estava muito danificado, se descobriu também os restos mortais da Santa.
Os ossos estavam em avançada deterioração e o que muitos pensaram ser seu corpo em bom estado de conservação (apenas com rosto, mãos e pés escurecidos) era, na verdade, uma tela de cobre que tinha a forma do corpo com o esqueleto em seu interior.
Com alguns ossos reconstituídos com arame e algodão e outros já decompostos, foram necessáios meses de estudo, uma equipe de especialistas (químico, ortopedista, egiptólogo, escultor) higienizou e recompôs as relíquias (deixando-as organizadas).
Atualmente restam apenas 57 dos 208 ossos que formam a estrutura corporal humana. A urna-relicário de Santa Clara retornou para sua Basílica no dia 12 de abril de 1987, num Domingo de Ramos, a mesma festividade litúrgica que marcou sua saída do mundo para a Vida Religiosa.
| Detalhe da urna-relicário (vista posterior privada). Relíquias ("corpo") de Santa Clara. |
O novo relicário tem em destaque uma armação em forma de corpo (tela, gesso, esmalte, cera e silicone), cujo manequim respeita a proporção da sua estrutura óssea, permitindo afirmar que Clara tinha 1,55m de altura. O rosto, a partir do estudo científico do crânio, reproduz a fisionomia aproximativa da Santa.
É revestido com um hábito simples de Clarissa, sobre base de madeira. Evitando tudo que represente ostentação. Tendo como primazia a pobreza e a simplicidade, com sobriedade, pois são os valores que estão em consonância com o ideal de vida abraçados por Santa Clara.
É contrastante com a primeira urna-relicário de 1872 (imagem acima) que evidencia o requinte do material e estilo artístico empregados no mesmo, mas que contrariam seu testemunho de austeridade e despojamento. O atual respeita seu carisma.
O que os fatos evidenciaram é que o corpo de Santa Clara não estava intacto quando foi encontrado em 1850, dado o trabalho de recomposição que foi realizado no mesmo; mas houve a tentativa de apresentá-lo com o aspecto mais natural possível aos seus fiéis.
Se respeitou, inclusive, a posição em que estava quando foi identificado. Infelizmente dadas as condições técnicas da época (uso de algodão e arame para envolver os ossos, substituindo inclusive os que faltavam), acabou prejudicando a conservação dos mesmos.
Além disso a técnica usada também fez com que os que estavam íntegros se deteriorassem. No entanto, o corpo de Santa Clara não estar incorrupto em nada altera o reconhecimento da sua santidade, nem seu exemplar testemunho de vida.
O tempo costuma decompor a matéria, mas a vida doada a Jesus ilumina através dos séculos. Santa Clara partiu para a casa do Pai louvando ter sido criada: "Vós, Senhor, sejais bendito, pois me criastes", e isso em 1253 (a mais de setecentos anos atrás).
Tudo o que a Santa viveu num pequenino mosteiro, fora dos muros de Assis, marcou o tempo e iluminou os séculos posteriores, ganhando vidas para a eternidade, quando os meios de comunicação não eram tão difundidos e rápidos como os da atualidade.
O amor é incorrupto, vai muito além da materialidade e transitoriedade temporal; é um testemunho eterno. Não se desgasta, frutifica e continua vivo, transformando a existência dos que se aproximam de pessoas que assumiram, como Santa Clara, sua vocação como espelho.
Auxiliar de todos os que desejam seguir os passos de Jesus, que se fez Caminho, Verdade e Vida, seu testemunho e legado de vida, confirmam o que diz São Paulo: "Agora, permanecem fé, esperança, amor, estas três coisas; mas a maior delas é o amor. Segui o amor" (1Cor13,13.14).
O amor é que nos eterniza. O porque da incorruptibilidade dos corpos de alguns santos é mistério cuja entendimento só cabe a Deus. E não deve influenciar nossa fé, porque Ele continua a nos falar no invisível. E Santa Clara continua a clarear nossos caminhos.
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Atualizada em 20/03/2026





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