O limite dado ao corpo é um meio de favorecimento ao espírito, que livre dos embaraços e burburinhos do mundo pode dedicar-se inteiramente ao Senhor, colocando-se a sua escuta, uma vez que Ele fala à alma no silêncio. É necessário a solidão que favorece o encontro consigo mesmo e com o Outro.
O próprio Jesus subia sempre a montanha para estar em maior comunhão com o Pai. "Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor" (3CtIn).
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| Acesso ao Coro do mosteiro de São Damião |
Para se bem entender a separação do mundo quanto ao corpo vivida por Santa Clara, convém voltar àquele que lhe serve como caminho por palavra e exemplo: São Francisco. Um belo modelo de vida ativa e contemplativa, numa só vocação e missão.
Embora pregador do Evangelho, seguindo fielmente o modo de vida dos apóstolos (itinerância), ele observa com rigorosa disciplina a separação corporal em relação ao mundo, não se deixando levar pela excessiva familiaridade. Francisco não admite a presença dos seculares nas moradias dos frades.
Por desejar que não se interrompa a oração com conversas vãs - "boatos do mundo" -, quer para si e seus irmãos apenas a ocupação com o Ressuscitado: "E preparemos-lhe sempre dentro de nós uma morada permanente, a Ele que é o Senhor e Deus todo-poderoso" (1RgSF 22,24).
Assim Clara, para ser toda de Jesus, renuncia as formas de dissipação e divisão de afeto, serve a todos com fraternidade, mas o silêncio e a solidão do claustro resultam numa maior disponibilidade em conformar-se ao Cristo pobre, humilde e crucificado. A quem exorta as Irmãs a buscar sempre com amor incondicional.
É preferivel antepor Jesus a todas as alegrias e prazeres do mundo e na carta a Inês de Praga lhe diz: "Por isso vos livrastes das vestes, isto é, das riquezas temporais, para não sucumbir de modo algum ao lutador e poder entrar no reino dos céus pelo caminho duro e pela porta estreita" (1CtIn).
O amor ao Reino é exigente, faz-se necessário o despojamento das facilidades obtidas pela amizade com o mundo cujos valores são relativos. A Santa a aconselha a perseverar no seguimento de Jesus, mesmo quando isso lhe traz algum aborrecimento.
Indo contra a natureza humana que tem inclinação para o que lhe é agradável: "Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecedores, e viverá pelos séculos dos séculos" (2CtIn).
Num serviço sem reservas, nem limites, ao Esposo "da mais nobre estirpe", Clara incentiva a todos a fazer-se espelho no amor e nas boas obras, tendo por Ele tanto afeto e estima, e tornando-se uma pessoa sempre mais generosa e misericordiosa com seus irmãos e com todas as criaturas.
Assim já escreve, exultante, Santa Clara, que descobriu no silêncio e no escondimento a alegria da pertença a Jesus, e da sua contínua presença, longe das 'interferências' do mundo, num permanente cultivo da comunhão com o divino:
"Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais pelas eternas, merecer os bens celestes em vez dos terrestres e possuir a vida feliz para sempre!" (1CtIn).
Em todos os seus escritos, Santa Clara estimula Inês de Praga (e a todos(as) os(as) seus(suas) seguidores(as)) a sempre crescer em familiaridade com o Ressuscitado, e buscar um ambiente interior/exterior favorável à sua escuta e a vivência prática do santo Evangelho.
"Amando-o sois casta; tocando-o, tornar-vos-eis mais limpa; acolhendo-o, sois virgem. Seu poder é mais forte, sua generosidade mais elevada, seu aspecto é mais belo, o amor mais suave, e toda a graça mais elegante" (1CtIn).
Muitas são as pessoas que se inquietam por verem as monjas 'atrás' das grades, mas ignoram que essa opção nos possibilita "viver com o corpo recolhido para podermos servir ao Senhor com espírito livre", como consta em nossas Constituições.
Não é uma imposição da Igreja, visto que se exige a separação material, mas não se nomeia a forma. E para quem está do lado de dentro da clausura é o mundo que está atrás das grades, vítima dos mais diversos aprisionamentos, com seu excesso de ruídos.
Há quem se aflija com o silêncio, com o estar consigo mesmo, sempre com um desejo constante de fuga da realidade e de seus temores. Nós, ao contrário, diminuímos e mesmo afastamos, mais facilmente, tudo que possa tornar-se um obstáculo à comunhão com o Amado.
Atualizada em 23/01/2026


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