Iconografia Clariana

  Santa Clara e o ostensório

Iconografia Clariana



  Santa Clara, comumente, é representada com um ostensório nas mãos, notadamente em pinturas e imagens posteriores ao ano de 1500. O que pouca gente sabe é que a santa é anterior ao uso desse belo objeto litúrgico e a aprovação da festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo).

    Essa solenidade só teve início, a nível mundial, em 1264, antes somente na Bélgica, ou seja, essa celebração só chegou a Itália onze anos após a morte da Santa. Não lhe foi possível adorar a Jesus, seu amadíssimo Esposo, no modo como é conhecida.

  Até então não se fazia a exposição do Santíssimo Sacramento para a adoração dos fiéis e, em razão das muitas heresias não se prestava o devido culto à Eucaristia. Com a procissão do Corpo de Cristo tem início o uso do ostensório pela Igreja Católica.

   O nome ostensório deriva do verbo latino ostendere que significa mostrar, expor; uma vez que o Santíssimo Sacramento é levado, em exposição, com a devida honra e reverência, pelas ruas que são ornadas para a Sua passagem em procissão.

   A arte une o amor e a devoção de Santa Clara a Jesus Eucarístico, bem como a experiência vivida por ela e sua comunidade, quando da ameaça da invasão do mosteiro de São Damião por mercenários sarracenos, com um elemento posterior de nossa religiosidade: o ostensório.

   Inicialmente Santa Clara é apresentada com um pergaminho ou livro, simbolizando sua 'Regra' e/ou báculo, símbolo da sua autoridade como abadessa (madre) e também encontra-se exemplares em que traz na mão um lírio, símbolo da pureza, representação pictórica das suas virtudes.

Santa Clara e o ostensório

   De semblante desconhecido das gerações posteriores a fiel seguidora de São Francisco favorece a total liberdade artística evidenciando sua simplicidade e pobreza também nesse aspecto. Sabe-se, por suas relíquias, que era loira e que sua estatura era por volta de um metro e cinquenta centímetros.

   A representação da Santa impondo um belo ostensório,  fora dos muros do mosteiro de São Damião ou em uma ornamentada sacada (inexistente no mesmo), deriva da releitura artística da narração da Irmã Francisca, Clarissa que foi a 9ª testemunha do Processo de Canonização, de 1253: 

 "tendo os sarracenos entrado no claustro do mosteiro, a senhora pediu que a carregassem até a porta do refeitório e pusessem diante dela uma caixinha onde estava o santo Sacramento do Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. [grifo nosso] 

Prostrou-se por terra em oração e orou com lágrimas, dizendo estas palavras entre outras: "Senhor, guardai Vós estas servas, porque eu não as posso guardar". Então a testemunha ouviu uma voz de maravilhosa suavidade: “Eu te defenderei sempre!” (...) Os sarracenos foram embora sem fazer mal ou causar prejuízo" (ProcC9Ts).

    O grave estado de saúde de Santa Clara cuja enfermidade é desconhecida, a impedia até mesmo de caminhar ou ficar em pé sozinha, sendo impossível que a mesma fosse colocar-se em frente aos mercenários que já se encontravam no pátio interno do mosteiro.

Santa Clara e a Eucaristia
Pequena Teca encontrada em São Damião (madeira e marfim) - Imagem ampliada

  A livre releitura do fato e a criatividade dos artistas caracterizou Santa Clara como "a santa do ostensório", o que não deixa de ser uma forte característica da sua espiritualidade, uma vez que nutria profundo amor por Jesus Eucaristico.

  O milagre que alcançou, orando ajoelhada diante da Eucaristia, revela toda a intimidade vivenciada nos seus momentos de oração contemplativa com seu nobre Esposo, que libertou não somente o seu mosteiro como toda a cidade de Assis.

  Na Idade Média, a elevação do Cristo Eucarístico era permitida somente durante a Santa Missa e por um sacerdote; tal gesto, mesmo levando-se em conta a gravidade da situação, resultaria, no mínimo, na excomunhão de Clara, mas a humildade dela não permitiria isso.

   Os milagres relatados no Evangelho nos ensinam que Jesus é o Deus do amor mas também da santa discrição, não necessita de atos espetaculares com grandes ruídos e luzes para fazer a graça acontecer. E foi no silêncio do mosteiro de São Damião que a grande vitória se deu, mas sem alardes.


Atualizada em 19/02/2026

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