No caminho de seguimento do Cristo Pobre, Clara se percebe sempre mais dependente do Pai das misericórdias, vê-se miserável, carente de bens (espirituais), uma contínua recebedora dos seus dons e dádivas, a começar pela graça da sua vocação.
Quer sempre mais se conformar com Jesus que, sendo Deus, se fez "o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias da cruz",(2CtIn). Ser pobre entre os homens, para Clara, é viver na autenticidade aquilo que se é diante do Pai Celeste.
A pobreza clariana imita a entrega, a minoridade e a humildade do Filho de Deus, e não o faz por temor ou gosto sombrio, mas por um amor cheio de reconhecimento e gratidão a Jesus que se despojou da sua condição divina para dar à humanidade a salvação eterna.
"Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor!"
Sua entrega é voluntária, não é algo exigido, feito para satisfazer a vontade de outrem, e muitos consideram sua opção como radical e imprudente, mas Clara abraça a pobreza como parte de seu carisma, num ato de amor ao Pai.
Não queria nem ninguém, a impedisse de ser pobre.
O reconhecimento dessa pobreza leva Santa Clara à sua manifestação exterior, a evidencia nas vestes, na alimentação e no modo de trabalhar. Deseja que esta seja a "marca" de sua vida e de sua família religiosa. Para isso vai em busca do apoio da Igreja.
Anseia pelo seguimento autêntico e fiel do santíssimo Esposo. E, por isso, renovará esse pedido (privilégio) há outros pontífices, como ela mesma deixou registrado em seu testamento. Tem máxima confiança no auxílio amoroso e providente do Pai Celeste.
"Para maior segurança, tive a preocupação de conseguir do senhor papa Inocêncio, em cujo tempo começamos, e dos seus sucessores, que corroborassem com os seus privilégios a nossa profissão da santíssima pobreza, que prometemos ao Senhor e ao nosso bem-aventurado pai, para que em tempo algum nos afastássemos dela de maneira alguma".
É um conformar-se ao Crucificado com amor incondicional, em perfeita fidelidade. É a acolhida do se fazer um outro Cristo por amor a Ele, e por todos que lhe são caros; uma vida numa total comunhão de bens. Assim Clara vive e ensina: "Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre" (2CtIn).
Inovadora e protagonista na forma da vivência da vida de clausura, sábia e prudente, conhecedora dos temores dos pontífices a respeito da sua forma de vida, Santa Clara cria o Privilégio da Pobreza, algo inusitado para garantir que ninguém alteraria o seu seguimento nos passos de Francisco.
O primeiro documento, denominado como "privilégio" foi, possivelmente, em razão da imposição da observância da Regra de São Bento; temendo perder a vivência da pobreza no seu carisma, faz essa solicitação em 1216, ao Papa Inocêncio III.
Privilegium Paupertatis (Privilégio da Pobreza)
Sicut manifest est (Como é manifesto)
Inocêncio,bispo, servo dos servos de Deus, às diletas filhas em Cristo, Clara e demais servas da igreja de São Damião, de Assis, tanto presentes como futuras, que professaram a vida regular, para perpétua memória.
Como é manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e distribuído tudo aos pobres, proponde-vos a não ter absolutamente nenhuma propriedade, aderindo totalmente aos vestígios daquele que por nós se fez pobre, caminho, verdade e vida; e desse propósito não as faz fugir nem a privação das coisas; pois a esquerda do esposo celeste está sob a vossa cabeça para sustentar a fraqueza do vosso corpo, que submetestes à lei do espírito em caridade perfeita.
Afinal, aquele que dá de comer às aves do céu e veste os lírios do campo não vos há de faltar tanto na alimentação como para a roupa, até que, passando não vos venha servir na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude de sua visão.
Portanto, como haveis suplicado, corroboramos o vosso propósito da mais alta pobreza com o favor apostólico, concedendo-vos com a autoridade da presente, que não possais ser por ninguém obrigadas a receber propriedades.
E se alguma mulher não quiser ou não puder observar tal propósito, não fique morando convosco, mas seja transferida para outro lugar.
Decretamos, portanto, que não seja lícito absolutamente a pessoa alguma perturbar temerariamente ou atormentar com qualquer tipo de vexames a vós e a vossa igreja. Por isso, se, no futuro, alguma pessoa eclesiástica ou secular, conhecendo esta página de nossa confirmação e constituição, tentar temerariamente agir contra ela, e se, depois de admoestada duas ou três vezes, não corrigir o seu reato por uma adequada satisfação, seja privada da dignidade do seu poder e de sua honra, saiba que é passível de julgamento divino pela iniquidade perpetrada, seja afastada do santíssimo sangue de Deus e do Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor, e seja severamente submetida a castigo no juízo final.
Mas a paz de Jesus Cristo esteja com todas vós que observais o amor de Cristo e ao próprio lugar, para que aqui recebam o fruto da boa ação e encontrem os prêmios da paz eterna diante do Juiz estrito. Amém.
Atualizada: 23/04/2026


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